terça-feira, 6 de dezembro de 2016

6 de Dezembro - Dia do Extensionista Rural



Extensão rural é um processo de educação extra-escolar, ou, não formal. Seu objetivo é contribuir para a elevação de qualidade de vida das famílias rurais e por via de conseqüência, para o bem-estar de toda a sociedade. 

A extensão rural, adotada e adaptada pelo Brasil, a partir de 1948 teve por embasamento filosófico e metodológico o Serviço de Extensão ( Extention Service ) norte americano. Da mesma forma sua definição e objetivos. 

As informações dos itens 1 e 2 não provêm de citações de terceiros, nem foram colhidas em publicações, mas sim de quem ouviu de professores e especialistas americanos ( a exemplo de Lester Clap, Walter Crawford, Aleta Mc Dowell, Santiago Apodaca, James Crooks, Ana Laureta Dias e muitos outros), além de participar efetivamente, na implantação do Sistema Brasileiro de Extensão Rural – SIBRAER desde os seus primórdios até 1985 e, daquela data até hoje, continua acompanhando a caminhada e as transformações, nem sempre bem sucedidas, que vem ocorrendo no Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural – SIBRATER. É uma advertência que é feita aos que pretendem “historiar” a extensão rural no Brasil por meio de leitura de autores que em suas publicações, e até em teses de pós-graduação, repetem conceitos, filosofia, metodologia, etc., de extensão rural, encontrados em literatura equivocada, ou que, simplesmente, fazem hipóteses daquilo que não é, para explicar aquilo que seria, se fosse. Infelizmente, a maior parte, ou grande parte da história da extensão no Brasil, tem sido escrita por uma minoria de ativistas de ideologias contrárias ao pensamento da maioria, esta sim, geralmente acomodada e partidária do “deixai fazer, deixai passar”. 

A extensão rural, de que se fala, não dá, não vende, não empresta às famílias rurais com quem trabalha, mas, sim, educa-as e, delas recebe educação mediante troca de informações. Trata-se, portanto, de verdadeiro intercâmbio de culturas. Essa é a principal característica que diferencia as tradicionais políticas governamentais de fomento, ou estímulo, à produção agrossilvopastoril, adotadas com exclusividade, no passado e que ainda persistem com maior ou menor dose no Brasil. O referido fomento exercita o paternalismo governamental, quando distribui, gratuitamente, sementes, mudas e outros fatores de produção; institui revenda de materiais a baixo custo, subsidia financiamento eliminando, ou baixando , os juros dos empréstimos, empresta máquinas e reprodutores sem qualquer cobrança, etc. A extensão rural adotou a filosofia chinesa que aconselha “não de o peixe, ensine a pescar”. E, no tocante a pedagogia do ensino, o princípio do “ensine a fazer, fazendo” ( teach to do by doing). Bons comunicadores aconselham acreditar pouco no que se ouve, metade no que se vê e muito no que se faz. Para reforçar a condição do intercâmbio, alguns pedagogos ampliaram a expressão original para “ensine a fazer, fazendo e aprendendo”, com outras variações que não diminuem a força da condição inicial que é o contato direto do agente de extensão com seus parceiros agricultores e a execução das práticas de campo, numa demonstração de que o suposto educador sabe fazer o que pretende ensinar, ou divulgar, transferir, disseminar, difundir, etc. É pura perda de tempo ficar querendo classificar a extensão rural, adaptada dos Estados Unidos, de “modelo difusionista” e outros epítetos de forma depreciativa, porquanto tais “visões críticas” nada constroem de positivo, ou tenham alguma utilidade, para o agente de extensão que precise melhorar seu desempenho profissional. 

O extensionista rural é um agente de mudanças. Principalmente no que concerne as atitudes, hábitos e habilidades inerentes às famílias rurais. Exemplos: Mudança de uma atitude individualista para o associativismo. Do hábito de jogar o lixo no curso d’água mais próximo da propriedade. De habilitar-se para regular uma colheitadeira, ou uma ordenhadeira mecânica, etc. Tais mudanças implicam na substituição de métodos tradicionais de exploração do solo, das águas, dos reinos animal, vegetal e mineral que degradam o ambiente, por métodos modernos que garantem a produtividade dos solos e das águas de forma permanente. Mas, sobretudo, o agente de extensão rural deve contribuir para mudar a qualidade de vida das famílias rurais , preferencialmente daquelas que mais carecem do “insumo intelectual”, ou seja, do conhecimento técnico necessário e capaz de realizar a transformação com vistas, naturalmente, no alcance do bem-estar com sustentabilidade, de forma a legar às gerações futuras os recursos naturais imprescindíveis à permanência da vida humana no planeta Terra. 

O modelo de extensão rural adaptado e adotado no Brasil, a partir de 1948, teve como unidade de parceria, no trabalho, a família agricultora, isto é, adultos e jovens de ambos os sexos. Relembre-se que nas primeiras décadas da implantação da extensão rural no Brasil, o trabalho com a família tinha algumas características merecedoras de esclarecimento. Ao agricultor adulto, cabia a responsabilidade principal relativa à produção agropecuária, a qual, por sua vez, era o principal representante do setor econômico da propriedade. À esposa do agricultor, cabia a responsabilidade pela economia doméstica, ressaltando-se nela as atividades relacionadas com o preparo da alimentação, do vestuário, do melhoramento do lar, dos problemas com a educação e saúde da família. Essas atividades constituíam a base para o bem-estar da família e representavam o setor social. Entretanto, não era ignorado que além das atribuições da mulher, consideradas “sociais”, ela despendia, como despende hoje, boa parte do tempo no trabalho com a produção agropecuária. Não há erro ao se afirmar que as horas trabalhadas pela mulher no campo são superiores as do agricultor. Os filhos do casal eram organizados por meio dos Clubes de Trabalho 4s (saber, sentir, servir, saúde), semelhantes aos Clubes 4H dos Estado Unidos, com o objetivo de formar bons cidadãos, futuros agricultores e economistas domésticas rurais. Cada Clube 4S tinha por meta a realização de um projeto de interesse coletivo (sinalização de estradas, campo de esportes, etc.) e cada membro do clube deveria executar um projeto individual que gerasse alguma renda para o e à jovem. 

Um dos primeiros encontros nacionais que reuniu todos os serviços de extensão rural existentes no Brasil aconteceu em Belo Horizonte, na década de cinqüenta, e teve por finalidade uniformizar os termos e expressões a serem adotados por todo o então Sistema Brasileiro de Extensão Rural – SIBRAER. A causação do encontro era que os agentes de extensão falassem uma mesma linguagem, condição indispensável para qualquer sistema subsistir. Diz um dos livros sagrados mais lidos do mundo (Bíblia) que quando Deus quis impedir a construção da Torre de Babel (que seria uma obra monumental), confundiu a linguagem dos que nela trabalhavam e o projeto desmoronou. Encontros semelhantes deveriam ter acontecido, pelo menos de dez em dez anos, no último meio século, para evitar a balbúrdia, que hoje reina no país, a respeito dos termos e expressões que são empregados no Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural, principalmente no que concerne à metodologia de ação. 

Um exemplo de deturpação da linguagem, hoje comum em todo o país, é a utilização do termo cliente. Segundo o dicionário (onde é definido o significado das palavras) cliente é o doente, com relação ao médico habitual; é o freguês, (geralmente aquele que compra e paga por algum bem adquirido); é o constituinte em relação ao seu advogado ou procurador. A família rural, assistida pelos agentes de extensão rural, não se enquadra na definição exposta. Em primeiro lugar a assistência propiciada é gratuita. Em segundo lugar o agente de extensão não é o médico habitual da família rural, nem o advogado ou procurador. Nos Estados Unidos, o agricultor assistido é considerado um cooperador, e o termo mais ajustado seria de parceiro. Parceiro, no sentido de mútua responsabilidade, de integração e interação entre os agentes de extensão e as famílias rurais. Assim, o sucesso do agricultor seria também, o sucesso do extensionista, bem como o fracasso de um seria, também, o fracasso do outro. O cliente ou clientes, atuais do SIBRATER, são os que estão financiando, ou ajudando de alguma forma para sua manutenção. Clientes são, portanto, o governo federal, os governos estaduais, as prefeituras e outras instituições nacionais ou internacionais contribuidoras. Os relatórios dos serviços prestados e o marketing para os financiadores devem demonstrar que os recursos financeiros, materiais e humanos aplicados contribuíram para a elevação do bem estar das famílias rurais e, por via de conseqüência, para toda a sociedade. Entretanto, quem deve pronunciar-se a respeito da qualidade dos serviços prestados pelos extensionistas são, principalmente, as famílias rurais assistidas e as lideranças rurais. 

Colaboradores ou cooperadores são todos os que, de alguma forma não convencional, ou não institucionalizada, contribuem para a sustentabilidade e/ou melhoramento dos serviços de extensão rural. 

É verdade que o agente de extensão rural aprende muita coisa das famílias com as quais trabalha. Entretanto ele deve ter muito mais a ensinar a elas do que delas aprender. Pois, essa é a missão do educador. Aquele que afirma, simplesmente, que o extensionista deve aprender com o agricultor contribui, perigosamente, para a exclusão da responsabilidade inerente ao agente de extensão que é a de estar permanentemente atualizado em relação aos avanços da ciência e da tecnologia, aplicáveis na prática de campo, e úteis para as famílias rurais. Referida afirmação parte, inviavelmente, de pessoas que não sabem como fazer as demonstrações práticas que precisam ser efetuadas, dentro do postulado pedagógico que preside o extensionismo rural que é “ensine a fazer, fazendo”. E, tais pessoas, também, com raras exceções, são as que não possuem a adequada formação em ciências agrárias, porém, invariavelmente, portadoras do discurso teórico, onde predomina o pedantismo semântico e as expressões de difícil decodificação, muito ao gosto e da prática de certa área do ensino que o filósofo Pedro Demo se recusa a aceita-la como ciência. Igual perigo ocorre, também, com certos pedagogos, que, para se livrarem da responsabilidade de prepararem as aulas de acordo com os avanços das ciências amparam-se no princípio de que o professor deve aprender com o aluno e acabam transferindo para o estudante a tarefa que lhes cabe que é a de ensinar e educar. 

O público beneficiário de um serviço de extensão rural é a sociedade em geral. Um bom serviço de extensão, prestado em parceria com as famílias rurais, repercute, favoravelmente, em toda a sociedade, principalmente quanto a preservação dos recursos naturais e a produção de alimentos saudáveis e suficientes para satisfazer a demanda dos mercados consumidores nacionais e internacionais. 

O agente de extensão planeja suas atividades com base no seu conhecimento da realidade do meio no qual vai trabalhar. Por isso, antes de tudo, é necessário conhecê-la ao máximo possível mediante levantamentos e estudos da referida realidade. Essa deve conter, no mínimo, dados históricos sobre a área onde o agente de extensão vai atuar; formação e estágio cultural da população rural; organizações sociais existentes ( associações, cooperativas, sindicatos, clubes, etc.), autoridades constituídas existentes, nos três poderes; demografia; qualidade das águas, dos solos e do clima existente; produção produtividade e valor relativo ao setor agrossilvopastoril; produção industrial (principalmente agroindústrias); sistema de ensino/educação existente; comércio e indústrias existentes; vias e meios de transporte e comercialização (principalmente da produção agrossilvopastoril); turismo rural; Instituições públicas e particulares de apoio às famílias rurais; êxodo rural (principalmente quais as causas); lideranças políticas, religiosas, classistas, etc. Frente aos dados colhidos, o agente de extensão apresentaria, no seu relatório inicial, uma visão geral relacionada aos aspectos técnicos, econômicos, sociais e, sobretudo, acerca da situação do ambiente natural, existentes. 

O agente de extensão planeja suas atividades com base no estágio cultural (nível de conhecimento técnico) em que se encontra a família, ou famílias, com as quais vai trabalhar. (continua na próxima semana)

Glauco Olinger - engenheiro agrônomo – Consultor do Programa Santa Catarina Rural

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